28 de dezembro de 2015

DANDO A CARA PRA BATER

Atual formação trilha novos caminhos em Bringer of Terror

Por João Messias Jr.

Bringer of Terror
Divulgação
"Ninguém no mundo vai nos aplaudir se fizermos as coisas da forma mais simples, ninguém no mundo vai nos aplaudir se fizermos as coisas do jeito errado. E a única forma de agir que acreditamos é ir sempre em frente, isso é uma necessidade para nós". 

Cá entre nós, você pode até não ser um fã do Ghost, mas a frase acima dita por um dos seus Nameless Ghouls em uma entrevista para a Roadie Crew, além de uma sinceridade ímpar, é dona de grande valor artístico, pois fala em acreditar no que faz, sem saber de convenções ou algo do gênero.

Além disso, define perfeitamente a atual fase do hoje trio de death/thrash Azorrague. Contando hoje com Fernando Frogel (baixo e voz), Roney Lopes (guitarra) e Macarrão (bateria e voz), os caras foram corajosos e fizeram um álbum bem diferente de seu debut, Die With Us lançado em 2012.

Essa "discrepância musical" é apontada logo de cara em Bloody Hands. Apesar de furiosa, ela mostra que a atual formação pensa muito além. A audição revela uma preocupação com a dinâmica das canções, o que nesse caso foi uma decisão acertada.

Já a faixa que nomeia o trabalho, Bringer of Terror tem guitarras com um jeitão Flórida de fazer death metal, porém aposta na cadência e vem acompanhada de solos bem sacados, enquanto A Voodoo Journey é pesadona, pra bater cabeça.

Porém é For All I Believe é que dividirá opiniões. A canção aposta em vocais e instrumental mais grooveado e vocais femininos que fogem do padrão, a cargo de Cecília Neufeld, que soa próximo das trilhas de animes. Se tiver mente aberta, descobrirá algo improvável e inusitado, se for fã apenas do som "casca grossa", terá uma grande decepção.

Com suporte de uma produção competente a cargo de Karim Serri (Doomsday Hymn, ex-Seven Angels) e uma capa que impõe respeito são mais alguns atrativos que fazem de Bringer of Terror uma opção aos fãs de música pesada atentos por novidades e que não se prendem a fórmulas e receitinhas de bolo.

10 de dezembro de 2015

A PREOCUPAÇÃO COM AS MELODIAS E ARRANJOS VOCAIS

Cada uma em sua praia, as bandas Radiolaria e S.E.T.I. mostram que o cuidado ao conceber músicas agradáveis aos ouvidos, faz com que se diferenciem da multidão

Por João Messias Jr.

Não tem jeito. Com tanta coisa sendo lançada no mercado independente (algumas com gosto duvidoso), o lance é caprichar no material. Seja nas músicas, produção, capa e encarte e o mais importante: buscar um detalhe que torna o seu trabalho diferente da concorrência.

E nessa corrida extremamente competitiva e algumas vezes cruel, encontramos dois lançamentos, que embora possuam estilos distintos, cativam pelos mesmos motivos: o cuidado com as melodias e as harmonias vocais dos grupos Radiolaria e S.E.T.I.

Vermelho
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Oriundo de Minas Gerais, o Radiolaria tem como grande mérito equilibrar nuances de estilos diversos, como o  classic rock, folk e uma inspiração estelar por grupos como Clube da Esquina, fazendo com que sua música agrade fãs que variam desde Cream, Sting, Skank e Bob Dylan, o que vamos combinar não é para qualquer um.

Felipe Barros (voz e guitarra), Felipe Xavier (voz e violão), Wagner Costa (baixo) e Pedro Rios (teclado, que foi oficializado após o lançamento) fizeram de Vermelho, debut lançado em 2014 um trabalho de fácil audição, de ponta a ponta (por algumas vezes seguidas) graças as melodias grudentas e as harmonias vocais equilibradas. Alguns casos ficam por conta de Pedaço de Papel, Cavaleiro Errante, a introspectiva Tango, a grudenta As Palavras são bons exemplos do poder de fogo da música dos caras. Embora o maior destaque seja Devaneio, cujo início soa como uma prosa, ganha um final de tirar o fôlego.

Outro atrativo fica no simples, porém bonito acabamento em digipack, que faz com que o fã queira tê-lo em sua coleção.

Extase
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Numa linha mais voltada ao synthpop, o duo S.E.T.I. consegue prender o ouvinte com um ritmo denso e melancólico, cujas batidas eletrônicas criam um contraste interessante. Roberta Artiolli (voz, synths) e Bruno Romani (baixo e programação) fogem do esquema 'baticum', se concentrando nas melodias e harmonias, fazendo um mix de grupos como Chemical Brothers, Radiohead e Tears For Fears.

Seu novo trabalho, o EP Extase destaca pela linearidade e pelos vocais doces de Roberta, que faz com que canções como A Arte da Guerra grudem na cuca de imediato. Outros destaques ficam por conta do clima alternativo de Gravidade Zero, a melancólica Dias Mudos e Benjamim. Esta, o ponto alto do trabalho, com jeitão de hit, além de ser um tributo ao guitarrista Benjamin Curtis (School of Seven Bells), que nos deixou em 2013.

Competentes, bem produzidos e com um bom trabalho de capa/encarte. Duas bandas que com certeza, se tiverem a ajuda do público, podem alçar vôos bem mais altos.

8 de dezembro de 2015

BRUTAL, REFINADO E CANDIDATO A MELHORES DO ANO

"Seasons of Red", novo trabalho do Chaos Synopsis surpreende por apresentar contornos mais trabalhados e inusitados

Por João Messias Jr.

Seasons of Red
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Quando uma banda prepara o terceiro trabalho, é normal que cresçam as expectativas, principalmente aos fãs que sabem que é este que mostra se a banda tem gás para uma carreira longínqua ou começa a apontar que o fim da linha está chegando.

No caso do Chaos Synopsis, o lançamento de seu terceiro álbum de estúdio, Seasons of Red mostra que o quarteto hoje formado por Jairo Vaz (voz e baixo), JP (guitarra), Luiz Ferrari (guitarra) e Friggi Mad Beats (bateria) mostra que tem muito a mostrar. Principalmente pelas sutis mudanças adotadas aqui. 

Para o fã que começa a ler a resenha já adianto que os caras não adotaram passagens a lá como Korn e Pink Floyd, apenas alguns diferenciais que o torna (bem) superior ao trabalho anterior, o ótimo Art of Killing.

Diferenças que ouvimos logo de cara na primeira faixa, Burn Like Hell, graças aos seus climas flamencos/orientais (alguns lembrarão de Spanish Blood do Leviaethan) , que a deixa marcante e nos faz querer saber o que vem pela frente. As guitarras de JP e Luiz Ferrari se sobressaem em The Scourge of God e Brave New Gold, com melodias que esbarram no metal tradicional. Claro que aquela banda brutal e fanfarrona mostra que não esqueceu suas origens. Incident 228 é um desses casos, apesar das sutis diferenças no vocal de Jairo, o que aqui é positivo.

Four Corners of the World encerra em grande estilo. O começo com guitarras trabalhadas logo deixa a cena, alternando climas brutais e outros voltados ao rock and roll puro e simples. Ainda falando dessa faixa, ela conta com a participação do guitarrista Ítalo Junqueira, que chegou a fazer alguns shows com o grupo.

O conjunto da obra está sacramentado em uma bela embalagem em slipcase, capa assinada por Rafael Tavares e uma boa gravação, que contou com a produção de Friggi e masterização no Abosolute Master. Pontos que unidos farão que o nome do grupo cresça cada vez mais. Cujo primeiro passo será vê-lo (com todo mérito) nas listas de melhores do ano.

1 de dezembro de 2015

SONHADORES DA CENA EXTREMA

Nova edição do festival Ataque Extremo contou com as bandas Reffugo, Justabeli, Blackning e Chemical Disaster

Texto: João Messias Jr.
Fotos: Patricia Amorim Flavera

Muitos chamam de sonhadores, outros de loucos e poucos de vagabundos, mas a verdade é uma só, que nunca foi e nunca será fácil apoiar/montar um evento destinado ao metal no Brasil, salvo algumas exceções.

Assim podemos falar do “Ataque Extremo”, que há anos dedica um espaço para bandas desse segmento aqui no ABC paulista e nessa atual edição, realizada no dia 3 de outubro, trouxe aos presentes o melhor do submundo extremo, com as bandas Reffugo, Justabeli, Blackning, Bloody Violence e os santistas do Chemical Disaster.

Inicialmente no Cidadão do Mundo, atualmente o evento acontece na Troppo, localizada no centro de São Caetano do Sul, que apesar de bem diferente da primeira casa, mantém o charme e as características para receber eventos do estilo.

Justabeli
Patricia Amorim Flavera
Por motivos logísticos acabei perdendo o show do pessoal do Reffugo, uma pena. Já se passavam das 23h30 quando o Justabeli iniciou seu set. Com uma nova formação, que além de War Feres (voz e baixo) hoje é composto por Julio Blasphemer (guitarra) e Morbus Deimos (bateria) deram continuidade na divulgação de seu novo trabalho, o álbum Cause the War Never Ends.

Os destaques ficaram por conta de Die In the War, a técnica Infected By Radiation e os ótimos solos de Divine Fall, numa ótima apresentação, que foi marcada pela coesão, além de evidenciar que a atual formação vai muito bem obrigado.

Blackning
Patricia Amorim Flavera
Do death/black rumamos ao thrash com o Blackning. E para quem ainda não conhece o trio formado por Cleber Orsioli (guitarra e voz), Francisco Stanich Jr. (baixo e voz) e Hellvis Santos (bateria) está perdendo tempo, ainda mais se for fã do thrash brazuca praticado nos anos 90 (Sepultura, Overdose, Korzus). 

Em um set curtíssimo, mandaram músicas do debut, Order of Chaos, de 2014 que teve como pontos altos The Will Be Done, Death Row e Unleash Your Hell. Vale citar que além da pegada ‘brazilis’, o que chama a atenção é o groove inserido nas canções, que as deixam especiais, além de diferenciar o grupo de outros do mesmo estilo.

Já eram mais de 1h40 da madruga e o death metal retornava com a gauchada do Bloody Violence. Voltando de um giro na Europa, o trio formado a época por Israel Savaris (baixo e voz), Igor Dornelles (guitarra) e Eduardo Polidori (bateria) vai na vertente mais técnica e brutal do estilo, com destaque para as linhas de baixo e o uso da guitarra de oito cordas, cujas texturas são um atrativo a mais nas canções, como pudemos ouvir em Mother of the Dying, Colares UFO Clap e Born to Squirm. Ótima banda, cujo debut Divine Vermifuge merece um lugar na CDteca dos admiradores de música extrema!

Chemical Disaster
Patricia Amorim Flavera
Encerrando a noite tivemos os veteranos santistas da Chemical Disaster. Luiz Carlos (voz, Vulcano), Fernando Nonath (guitarra), Ricardo Lima (guitarra), Carlos Diaz (baixo) e Juca Lopes (bateria) agradaram em cheio os presentes com seu death metaal old school. 

Tudo permeado por um clima de descontração, como se fosse um encontro entre amigos, que respondiam batendo a cabeça em sons como When the Man Loses Fate, Soulsick, Canibalistic Greed e numa visceral versão para Black Metal (Venom). Seco, letal e mortífero, como um show de death metal deve ser!

Nem tudo foram flores

Esse é o ponto chato desse texto. Embora a noite tenha sido agradável, com ótimas apresentações de todos os grupos, nem tudo foi 100% nessa noite. Apesar do som não estar as mil maravilhas (o que gerou a insatisfação do pessoal do Bloody Violence), o que é triste ver é o pouco público em eventos destinados ao metal no ABC.

O que faz vir a mente o seguinte questionamento...pra que bolar iniciativas destinadas ao estilo já que as pessoas preferem ficar em casa ou ouvindo as mesmas músicas que fizeram sucesso há 30, 40 anos atrás?

Assim, não há sonho ou ideal que resista a tanta falta de interesse (ou burrice)?